22 de dezembro de 2014

Odisséia de Natal

A poucos dias que antecedem o Natal, muitas famílias se preparam para celebrar a data em lembrança do nascimento de Jesus Cristo. Além da troca de presentes e da mesa farta, a essência da data, que é o espírito natalino, propicia a união da família. Entretanto, as pessoas esquecem o real significado do Natal e recorrem ao frenesi do consumo de alimentos, bebidas e enfeites. Por causa da falta de religiosidade e do consumismo, valores que antes eram cultivados se encontram esquecidos.

A tradição de presentear os familiares e amigos na noite de Natal e a brincadeira que envolve troca de presentes chamada "amigo secreto" ou "amigo oculto", muitas vezes ocasionam inimizades em consequência da decepção pelo presente recebido. Não seria a noite do Natal propícia para a união da família, onde a fraternidade, a solidariedade, a benevolência e a gratidão tomam conta? Pensando nisso, leia a crônica de Natal a seguir.

CRÔNICA DE NATAL


Na tarde às vésperas do Natal, um imprevisto fez com que a família se atrasasse para a ceia. Encarregado de fazer as compras de última hora, ele se dirigiu às pressas ao supermercado mais próximo. Restava pouco menos de meia hora para o estabelecimento fechar as portas e dois pernis para terminar o estoque. O ingrediente básico de um dos pratos mais esperados no Natal, não havia sido comprado ainda. Um tumulto gerado pelos corredores e aos arredores dos frios tornou a passagem uma tarefa difícil, entre os compradores atrasados com seus carrinhos e cestinhas lotados. Finalmente, apressou-se para apanhar o pernil, mas já era tarde demais - o último foi colocado em meio às compras de uma senhora, que, vagarosamente, examinava na prateleira o preço de alguns condimentos, enquanto o seu carrinho parecia distante.

Não balbuciou, de maneira premeditada foi se aproximando aos poucos do carrinho daquela senhora. Então, raptou o último pernil do supermercado que se encontrava nas compras da pobre anciã. Primeiro, sentiu-se culpado, em pensar que poderia estragar a ceia de uma senhora que, provavelmente, passaria a noite de Natal sem repartir um pernil com os seus netos. Pensou em devolver, embora chegasse à conclusão que sofreria piores consequências caso voltasse para casa sem o prato principal da mesa de Natal. De repente, uma menina que estaria à sua companhia, gritou ensandecida: - "Pega ladrão!". Os funcionários e clientes que perceberam o ato ficaram indignados, e antes que tentassem resgatar o pernil, tratou de se misturar aos demais, até perder-se em meio às dezenas de pessoas na fila do caixa do estabelecimento.

Já anoitecia, enquanto o pernil dourava no forno. O anfitrião que receberia seus amigos e familiares, já havia preparado numa bandeja a mistura de temperos para o churrasco, mas se espalhou pelo chão quando a nora arremessou, acidentalmente, um sapato ao tentar acertar uma barata. O sabor a mais que enaltecia a mistura só não estava tão ruim quanto o clima entre sogra e nora. As crianças corriam em torno do pinheiro de Natal tentando abrir os presentes antes da hora, enquanto outras duas tentavam puxar o rabo do gato que fugia aflito pela casa, frente à briga de seus pais. Os convidados chegavam pouco a pouco trazendo enormes embrulhos de presentes com um sorriso no rosto, enquanto eram recepcionados com taças de espumante e servidos como antegosto, picadinhos de carnes regados a ervas finas e sola de sapato.

Próximo da meia noite, eis que surge um Papai Noel - o mesmo ludibriador de senhoras em busca de pernil - na sala de jantar, surpreendendo a todos: o contador de lorotas, a tia que pergunta "E as namoradinhas?", o tio que faz a piada do pavê, a outra tia escandalosa que só grita com as crianças, o amigo que se acha humorista e as primas de infância que hoje já são mulheres feitas. Boquiabertos com a cena ensaiaram uma gargalhada conjunta ao terem visto as calças desajustadas do Papai Noel caídas no chão. "Faltou o cinto", completou constrangida a mãe fantasiada de duende. Motivo de piada, o Papai Noel desengonçado era fotografado com as crianças agitadas. Prontos para a mesa, soou o sino da igreja à meia noite, anunciando a chegada do Natal.

Cessou o júbilo. Era chegado o momento da troca de presentes. Começou a tia, dizendo ao sobrinho que não havia tido tempo para procurar algo melhor, mas que era de coração o par de meias bem abaixo do valor estipulado pela família. Logo depois foi a vez da nora, que ergueu um pacote retangular em direção à sogra. Era um par de chinelos fluorescentes, gerando uma visível insatisfação na sogra velha e rabugenta, seguido de um embate. Após dispensar o presente da nora, era a sua vez de presentear o neto com uma colônia cheirando a naftalina. Ele havia quebrado as regras do jogo com o intuito de tirar o nome da irmã, dando de presente uma blusa que não serve propositalmente. Quando foi a vez de o avô presentear o amigo com uma garrafa de vinho caríssimo, este lhe ofereceu uma camiseta com a frase: "Larguei a bebida... Só não lembro onde", para encerrar a brincadeira. Enfim todos puseram a se abraçar, esqueceram as desavenças e desejaram "Feliz Natal".

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